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9/09/2009

O papel da mulheres na construção da RSNS

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O trabalho aqui em destaque, é o papel e a participação da mulher nos espaços de decisão no âmbito da família, da comunidade e das organizações, de modo que tanto as mulheres quanto os jovens pudessem atuar em seus espaços como agentes ativos e decisivos em todo processo da organização seja no espaço famíliar, da associação, do sindicato, do partido político. Para isso se constatou que as estratégias para as mulheres chegarem a este patamar passava por conquistar a independência financeira, pois as mesmas não possuíam até aquele momento poder de decisão sobre os recursos financeiros da família, ficando estas sob o poder de decisão do esposo, do pai ou na falta desses do irmão mais velho ou do tio.

“Hoje eu percebo que antigamente eu era uma pessoa sem formação, eu digo que era inútil. Hoje eu já me vejo diferente, depois que começou esse trabalho em Uauá e eu comecei a participar, parece que meus olhos abriram e me sinto como gente. Não tenho mais aquela vergonha, pego o microfone em qualquer lugar e falo sem medo, até junto com prefeitos, claro, o prefeito fala do jeito dele e eu falo do meu jeito. Esses conhecimentos mostraram outro rumo na minha vida”. (Terezinha da Silva – Comunidade de Maria Preta, Uauá)

Era muito comum ouvir expressões como esta: “Se o marido já participa e contribui com o Sindicato, a mulher e os filhos jovens já estão representados”, e em muitos casos impediam mesmo das mulheres participarem alegando que era dois gastos.

Foi com estas e outras constatações que o IRPAA iniciou um trabalho para geração de renda, de forma que possibilitasse às mulheres e jovens buscarem sua autonomia financeira.

“Antigamente não enxergava o mundo fora da casa. Passava o tempo todo fazendo somente os serviços de casa. Depois que comecei a participar desses trabalhos, primeiro com a Pastoral Rural e depois com esses trabalhos do Irpaa, as coisas mudaram pra mim, os conhecimentos que já adquiri mudaram minha vida, hoje tenho meu dinheiro pra comprar o que eu preciso, pra fabricar os produtos e com isso ganhar mais dinheiro.” (D. Judite Maria de Santana – Comunidade de Cocobocó, Uauá)

Com esse intuito deu-se início a um processo de capacitação em diversas áreas com a finalidade de geração de renda nas comunidades, sobretudo, para as mulheres e jovens. Foram realizadas muitas visitas e capacitações, entre estas se destacaram os cursos práticos nas comunidades rurais. Foi um grande desafio fazer com que estas mulheres participassem das atividades, desde o transporte para chegar até o local, em muitos casos foi preciso levá-las para suas casas, depois do curso “é hora de distribuir, deixando cada uma em sua casa”. Cuidar das crianças foi outra preocupação: em muitos casos fez parte da preparação do curso a inclusão de brinquedos e metodologias para trabalhar com as crianças que foram acompanhadas de suas mães; sem falar na tamanha insatisfação dos seus companheiros, esposos quando tiveram que enfrentar e administrar em casa, por terem passado um dia ou dois ausentes de suas casas, sem falar naquelas que nem sequer conseguiram sair de casa.

Entre as atividades desenvolvidas a que mais se destaca é o processamento da produção, especialmente com a fabricação de produtos derivados do umbu e do leite, quando perceberam que ali estava uma das estratégias possíveis, e que sempre buscaram para ganhar “liberdade e autonomia” em casa.

Nos anos seguintes algumas mulheres integrantes desses grupos, motivadas com alguns resultados imediatos, avançaram e continuaram o trabalho como multiplicadoras, desenvolvendo cursos em diversas comunidades que mostravam bastante interesse pela prática do processamento das frutas produzidas nas propriedades, neste período receberam também apoio de um Programa da Pastoral Rural da Diocese de Paulo Afonso: CUC (Trabalho de Apoio às Comunidades Rurais dos Municípios de Canudos, Uauá e Curaçá). De forma rápida começaram a despertar o interesse das comunidades em processar a produção sobretudo, o umbu, uma vez que este produto é encontrado em larga escala na própria caatinga em praticamente todas as comunidades rurais daquela região.

No período de 1999 e 2000, com a implementação do IRPAA/PROCUC (Programa de Desenvolvimento Sócio-Econômico dos Municípios de Canudos, Uauá e Curaçá) a atividade se tornou uma das linhas de atuação do Programa, com isso ganhou força e ampliou suas ações para diversas comunidades, ampliando também a quantidade de produtos beneficiados, melhorando a qualidade e apresentação dos produtos, organizando os grupos de produção nas comunidades, iniciando assim o processo de inserção dos produtos no mercado regional.

“No início deste trabalho recebi muitas críticas, pois as pessoas não acreditavam nele, hoje as pessoas estão vendo os resultados e elas mesmas é que vão atrás” (D. Edite Rodrigues de Santana – Comunidade de Lages das Aroeiras, Uauá)

Em 2000, o trabalho começou a ganhar visibilidade, cresceu a demanda e as famílias se organizaram em torno de um grupo denominado “Grupo Unidos no Sertão”, que tinha como objetivo articular e organizar os diversos grupos que começaram a surgir nas comunidades com a finalidade de buscar o aperfeiçoamento profissional para a melhoria da qualidade dos produtos e continuar incentivando a inserção de novas comunidades no trabalho de processamento da produção. Foi nesse momento que surgiu a idéia da marca para os produtos desses grupos: “O SABOR NATURAL DO SERTÃO”.

No ano de 2003, foi criada a COOPERCUC – Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá, que surgiu para atender a crescente demanda das comunidades relacionadas ao processo de organização em escala da produção, beneficiamento e comercialização dos produtos da região e atender com qualidade o mercado local e regional e, por meio de suas ações, melhorar a vida das famílias dessa região.

Ainda em 2003, tanto o IRPAA como a COOPERCUC, entendendo a necessidade de assegurar a patente da marca já conhecida no mercado, a importância da organização, da articulação dos processos produtivos e da padronização dos produtos produzidos pela agricultura familiar no Semi-árido, resolveram disponibilizar a mesma para ser utilizada pelos grupos que se identificavam com este trabalho e possuíam os mesmos princípios, tanto politicamente como em suas formas de produção, organização e trabalho, entendendo que este poderia ser um espaço de articulação e organização dos diversos segmentos da agricultura familiar no semiárido. Ao mesmo tempo deu-se encaminhamento ao processo de registro da marca no INPI – Instituto Nacional da Propriedade Privada, representado pela empresa SILVA & GUIMARÃES.

A partir do ano de 2003, foram se incorporando a este espaço vários grupos, tais como: cooperativas, associações, ONGs, articulações, organismos da igreja católica e grupos informais e foi-se desenhando em formato de Rede, adicionando-se ao nome da marca: Rede Sabor Natural do Sertão.

No ano de 2005, as organizações que compõem a Rede, reunidas no primeiro seminário ampliado, elegeram uma comissão executiva que assume a responsabilidade de continuar animando e articulando as demais organizações, bem como de buscando estratégias e mecanismos de consolidação e fortalecimento da Rede, de modo que atendesse os anseios dos seus componentes.

“A cultura da solidariedade é um modo de encarar a vida individual, familiar, profissional e cidadã que tem como preocupação fundamental construir uma verdadeira humanidade, em que o essencial seja o nós e não o eu.” (Leandro Sequeiros)

O Sol do Sertão desperta a docura das frutas e a coragem de viver
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